Caminhos da Justiça: Oficialas de Justiça compartilham desafios para levar decisões ao interior do Piauí

Levar a Justiça até a população que vive no interior do Piauí pode exigir muito mais do que uma decisão judicial no papel. Estradas de terra, grandes distâncias, localidades de difícil acesso, endereços imprecisos e uma alta demanda fazem parte da rotina de quem precisa percorrer o estado para cumprir mandados. Duas Oficiais de Justiça que atuam no interior compartilharam os principais desafios encontrados diariamente nessa missão.

Fabiana Coelho, que exerce a função há um ano e cinco meses e já trabalhou no extremo Sul e atualmente está no Norte do Piauí, destaca que a extensão territorial das comarcas está entre os maiores obstáculos. Há diligências que exigem dezenas ou até centenas de quilômetros de deslocamento, muitas vezes utilizando o próprio veículo. “Precisamos percorrer dezenas ou até centenas de quilômetros para cumprir uma única diligência. Isso significa muito tempo na estrada, além de gastos com combustível e com a manutenção do nosso veículo pessoal”, relata.

A Oficial Débora Brenda, que atua na comarca de São Raimundo Nonato desde março de 2024, também conhece de perto essa realidade. A comarca possui oito termos e, em um deles, o deslocamento até a região central chega a aproximadamente 100 quilômetros. Com as áreas rurais, o percurso pode ultrapassar 200 quilômetros em um único dia. Em algumas situações, mesmo depois de todo o trajeto, o destinatário não é localizado.

Os obstáculos, porém, não estão apenas na distância. As condições de acesso também podem transformar uma diligência em uma verdadeira missão. Débora conta que já precisou atravessar a mata e a caatinga para chegar a uma área onde não existia estrada. Em outra ocasião, o carro em que estava caiu em uma lagoa e ficou completamente tomado pela água. Também há registros de caminhos destruídos pela chuva, impedindo a passagem.

A localização dos destinatários é outro desafio apontado por Fabiana. Em algumas localidades, ruas são conhecidas por nomes diferentes dos registrados nos mapas, há bairros com mais de uma denominação e casas sem numeração. Mandados com poucas informações também podem dificultar a busca. Segundo ela, dados como apelido, nome dos pais e profissão podem ser fundamentais para encontrar uma pessoa, principalmente em comunidades pequenas e áreas rurais.

A rotina ainda é marcada pela quantidade de trabalho. Em algumas comarcas, o número de mandados é elevado diante da quantidade de Oficiais disponíveis. A jornada também inclui plantões, inclusive aos fins de semana, aumentando a carga de trabalho.

Apesar dos desafios, as servidoras destacam que existe uma dimensão humana na atividade que se torna ainda mais evidente no interior. Débora conta que, durante as diligências, encontra idosos que vivem sozinhos e em localidades afastadas. Em alguns casos, a visita do Oficial de Justiça está entre os poucos contatos que essas pessoas têm ao longo de semanas. “Às vezes, a única pessoa que ela tem contato durante semanas é com o Oficial de Justiça que chegou lá para falar com ela”, relata.

É nesse encontro entre a decisão judicial e a realidade de quem vive longe dos grandes centros que o trabalho ganha outro significado. Para Fabiana, apesar das dificuldades, os Oficiais continuam diariamente nas ruas para aproximar o Poder Judiciário da população. “Somos nós que estamos lá, na ponta, levando a Justiça até onde ela precisa chegar.”